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Somos Seres em constante evolução

Recentemente estava indo pra uma meditação de manhã e parei pra tomar café numa padaria antes de ir. Do lado da padaria vi um jovem sentado na calçada. Mesmo se eu quisesse, não teria como fingir que não vi. Nossos olhares se cruzaram. Não tinha como me fazer de maluca.

Perguntei se ele estava com fome e ele disse que sim. Na padaria pedi pão na chapa e café com leite. Pra mim e pra ele. Pedi o dele pra viagem. Cinco minutos depois parou uma moça do meu lado e pediu café com pão pra viagem pra dar pro rapaz que estava na rua. Eu sorri. Pessoas boas existem sim. Disse pra ela que eu já tinha comprado, se preferisse, podia cancelar o seu pedido.

O café chegou e fui levar até ele. Ele sorriu e agradeceu. Voltei pra padaria, mas senti que podia fazer mais. Pedi pra colocarem meu café pra viagem e fui até o rapaz. Pedi licença e perguntei se podia sentar ao seu lado pra tomar café com ele. Ele sorriu e concordou.

Perguntei seu nome: Rafael. Me apresentei e perguntei por qual motivo ele estava ali. Ele disse que teve um atendimento médico recusado por estar sem seus documentos e que também não podia voltar pra casa. Perguntei se eu podia perguntar o motivo disso e ele deu um sorriso. Ele sabia que eu não estava lá pra julgá-lo.

Ele disse que perdeu os documentos e que alguns milicianos estavam “atrás” dele. Preferi não perguntar o motivo e lembrei que eu não estava lá pra julgá-lo. Perguntei o motivo dele precisar ir no médico. Ele disse que há alguns anos levou 2 tiros, um em cada perna. Preferi também não perguntar o motivo. Eu não estava lá pra julgá-lo.

Por um momento desviei os olhos dele e vi pessoas na rua tirando fotos e rindo. Rindo de mim? Rindo dele? Rindo da gente? O que tinha ali que chamava tanta atenção?

Continuamos conversando e quando percebi, já estava atrasada pra meditação. Mas eu não queria ir embora. Até que ele disse que queria mostrar uma foto do filho dele. Disse que estava com muita saudade e que não o via há alguns anos. Disse que a mãe do menino sumiu com ele, se mudou e não disse pra onde. Nesse momento os olhos dele encheram de lágrimas. Os meus também. Conversamos mais um pouco e perguntei como podia ajudá-lo. Ele disse: “Você já está ajudando. Está olhando nos meus olhos e está aqui conversando comigo e me fazendo companhia. Obrigado.”

Perguntei sobre a família dele, se tinha alguém que pudesse estar procurando por ele. Ele disse que a mãe dele sabia que ele estava lá, e que estavam se falando, mas que precisava de dinheiro pra passagem pra encontrá-la no meio do caminho, fora da comunidade, pra ela entregar os documentos dele. Nunca dou dinheiro pra pessoas na rua, mas pra ele eu dei. Disse que eu jamais saberia o que ele faria com o dinheiro, mas que eu preferia confiar nele. Ele me disse: “Já fiz muita besteira na vida e sei que vou pagar por cada uma delas. Já estou pagando. Tomei jeito”. Conversamos sobre arrependimento, fé e justiça Divina.

Olhei o relógio e “por acaso” vi a tatuagem que tenho no braço: “Abrace mais”. Putz. Ia ter que dar um abraço nele. Mas ele estava fedendo e eu não senti vontade de abraçá-lo assim. Fiquei triste comigo. Percebi minha escassez. Eu não era a “rainha” do abraço como imaginava. Aceitei minha recusa e me perdoei por isso. Até que ele disse: Rafaela, já que você vai embora, também vou levantar e vou tomar um banho ali na praça, o pessoal deixa a gente usar aquele banheiro ali. Grande ironia do destino. Apertei a mão dele e nos despedimos. Intencionei minhas melhores energias pra ele e pedi desculpa em silêncio pela minha limitação.

Fui andando pro local da meditação pensando no abraço que não consegui dar. A meditação foi ótima. Eu não conhecia ninguém, mas no final sugeri que todos trocassem abraços. Foi uma dinâmica legal e as pessoas ficaram felizes. Uma mulher disse que não se lembrava do último abraço que tinha recebido. Uma outra disse que ela não tinha o costume de dar abraços, por influência “da sua mãe”. Saí de lá feliz, mas pensando no abraço que não dei no Rafael. Aí escolhi agradecer por ele ter cruzado o meu caminho e me ajudar a evoluir, ao invés de ficar triste em perceber que eu não era tão evoluída quanto pensava.

Que saibamos reconhecer nossos limites e aprender com eles.

A gente não é tão bom quanto pensa nem tão ruim quanto imagina. Somos Seres em constante evolução. Todos.

Sejamos fraternos.

 

Rafaela Ganzenmuller

 

 

 

Fotografia: retirada da internet / Michael Aaron Williams

Sobre Rafaela Ganzenmüller

Rafaela Ganzenmüller
Fundadora do PranaZen, Rafaela Ganzenmüller é empreendedora social, nômade digital, terapeuta alternativa, leitora de aura, pranaterapeuta, reikiana, artesã, escritora e mãe do Zion. Atualmente vive num povoado na Chapada dos Veadeiros com sua família. Atende com as terapias a distância, presencialmente em GO e RJ e em festivais de música, sempre de forma empática, sensível e holística. Rafaela entende e valoriza o poder do equilíbrio das energias.

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